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TERAPEUTIZÇÃO SOCIAL

Uma paciente - que veio somente para pegar um encaminhamento para psicoterapia - reverberou o que eu vinha sentindo ha algum tempo; de forma espontânea, no auge da consulta.  "Queria poder contar o que penso e sinto, sem que isso afetasse a vida, a visão que as pessoas tem de mim ou minha relação com elas. Estive pensando, doutor, sabe? Não tenho amigos de verdade. Ninguém com quem eu possa conversar abertamente, sem pudores, sem receios. Ninguém com quem consiga me conecta r realmente. Só minha família... Mas, não posso conversar nada com meu marido que ele já quer pegar o problema e resolver, me dar conselhos. Às vezes, só preciso que me escutem, entende, não que resolvam nada." Tenho observado com interesse e achado um tanto exagerado essa onda de "terapeutização" da sociedade urbanizada: todo mundo com seu terapeuta - público ou particular -, que terminam por ocupar um espaço afetivo, de confiança e aconselhamento antes preenchido pela família, pelos vizin...

VISÕES NOTURNAS

São os mesmos rostos: que me angustiam e mobilizam; as mesmas faces, que me dilaceram e sensibilizam; as mesmas vítimas, ora protagonistas: da história reiteradas vezes repetida. É esse mesmo povo, que agoniza, nas ruas ou nos hospitais; desempregados, sem terras, mulheres, atormentadas por vozes e dores que remédio nenhum consegue tirar: pelos abusos, violência - emoções reprimidas -, agressões, sofridas dentro de casa, pelo homem que prometeu-lhes cuidar. Crianças sem-rumo, sem teto, sem lar, sem pai; mendigos maltratados em estacionamentos; a humilhação de não ter a quem beijar.  Índio queimado na capital do país; bombas caindo sobre o povo de Alá (silêncio); pessoas assassinadas por amar outra do mesmo sexo; emigrantes africanos desembarcando em praias perplexas do continente europeu. Jovens negros levando tapa de policiais, na esquina; homem velho, rico e branco exaltando a ditadura no Jornal Nacional: por mim, o Apocalipse era aqui e agora.

18 SEGUNDOS

Há estudos revelando um interessante dado: médicos levam em média 18 segundos para interromper a primeira fala do paciente (preocupante...) Mas, e quando é o paciente que interrompe o médico constantemente e não o deixa falar? Sofro especialmente com isso, pois é comum usuários chegarem à consulta com ideias e decisões pré-concebidas sobre o que precisam para gerenciar sua saúde (por indicação de um vizinho ou uma detalhada pesquisa feita na internet); expectativas que, quand o não preenchidas pelo médico, geram inconformidade, e até raiva. Às vezes, dado o calor da discussão, preciso fazer uma questão de ordem: “Será que o senhor (a) poderia respeitar o meu direito de fala?”

PAI CANDIDATO

Admiro quem luta, não nego; quem não se curva, nem desiste, e nunca baixa a cabeça, sejam quaisquer as adversidades. Admiro quem se lança, se compromete, e é consequente com seus princípios, ainda que a onda seja contrária. Admiro quem não mendiga favores, nem negocia lealdade, respeito. Admiro quem persegue sonhos, nada contracorrente e trava batalhas consigo mesmo todos dias para se superar. Admiro quem chega junto, quem pega no ombro, partilha sorrisos e compartilha os abr aços que tem. Admiro quem tem partido, quem não se esconde, quem mostra a cara, de peito aberto, e defende seus ideais. Admiro quem se manifesta, quem vai às ruas, e ama de verdade seu país, sua cidade. Admiro quem tem CAUSA e doa suas melhores energias em função de projetos coletivos. Admiro quem não vive nesse mundo, senão no futuro: onde finalmente seremos irmãos e irmãs, e já não haja injustiças, discriminações, exploração e opressões.

PARALISIA FACIAL

Aos 25 anos, destrambelhara-se na vida: namorado novo - traficantizinho do bairro -; e tomara a difícil decisão de atualizar a mãe sobre os rumos de sua existência: era bissexual. Tinha passado a falar excessivamente em gírias nos últimos tempos, (“como pode, doutor? Tão bem criada...”), o que tornou o convívio entre elas demasiado desgastante.  Havia-lhe planejado tudo: melhores colégios, festa de debutante, formatura na pompa, casamento com homem pacato, depois do qual lhe  presentearia com um apartamento mobiliado, ali mesmo no Gama, onde moravam desde que ela nascera.  Após organizar-lhe a vida, colocaria finalmente seu silicone – e apertou lascivamente os seios com a palma das mãos –, e faria a tatuagem que sempre sonhara (sinalizando com o dedo um dos flancos do abdome). Ia já pelos seus 43, irrompendo em gargalhada cada vez que lembrava “o quanto havia sido otária com a filha”. “Por que não esmurrei a cara dela?”, repetia inconformada. “Quis ser compreensiva,...

CHECK-UP

check-ups preenchem  vazios  existenciais

CADASTRAMENTO

"Bom dia, senhora. Somos da Clínica da Família. Viemos fazer um cadastramento." "Uh quê? Política? Sai pra lá. Passo o ano inteiro sem conseguir uma consulta, até 8 meses esperando. Agora que começou a campanha eleitoral vocês vêm aqui pra pedir voto. Sem vergonhisse." "Calma senhora. A gente só queria preencher a ficha de cadastramento do e-SUS."