OS CUSTOS DE UM CUIDADO AO AVESSO
Ao parecer, só existe uma lei que ainda é cumprida à risca no Brasil: a Lei dos Cuidados Inversos. Fazemos mais ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas que Estados Unidos, França e Alemanha, porém não conseguimos garantir um simplesexame de urina tipo 1 (EAS) a todas as mulheres durante o pré-natal. Gastamos absurdos com o que é supérfluo, às vezes inútil, e muito mais tentando remediar as consequências de não haver investido no que é fundamental.
Semana passada atendi uma puérpera de 16 anos que, ao contrário das expectativas, demonstrava interesse por seguir todas as orientações fornecidas pela equipe. Estudante do ensino médio, dizia-se apaixonada pelo namorado, com quem já morava. Engravidou cedo, mas, segundo garante, de forma absolutamente planejada.
Na época que acompanhamos seu pré-natal, vários exames do protocolo estavam indisponíveis na rede e, para piorar sua situação, ficamos sem acesso ao TrakCare – sistema digital de prontuários eletrônicos da SES-DF – para ver os resultados. Somaram-se a isso, limitações financeiras sofridas pelo casal que a impediram de realizar os exames solicitados em laboratórios particulares.
Como esperado, a adolescente apresentou um problema comum que não foi detectado nem tratado de forma oportuna durante a gravidez: infecção urinária. Evoluiucom um quadro grave de choque séptico por pielonefritee insuficiência respiratória aguda. Às pressas, precisou ser internada na UTI, foi intubada, fez uso de quatro tipos de antibióticos e outras drogas potentes (e caras),permanecendo hospitalizada por 18 dias. Seu filho nasceu prematuro, 34 semanas, parto cesárea, praticamente desfalecido, necessitando reanimação edrogas vasoativas.
Em sua primeira consulta de puericultura comigo, com um mês de vida, enquanto chorava peladinho sobre a maca de meu consultório, pensei: “Nem parece ter passado por tudo isso”. Olhei de relance para o rosto daquela menina inocente e senti-me culpado. Não como médico, mas como brasileiro.
Se investíssemos apenas parte dos recursos que gastamosem ressonâncias e tomografias desnecessárias garantindo um pré-natal de qualidade a todas as mulheres, independente de gênero, cor da pele ou classe social, nada daquilo teria acontecido. Tinha diante de mim doisverdadeiros sobreviventes; duas vítimas dessa lei perversa, que desassiste quem mais precisa, e superprotege os de sempre privilegiados.
Enquanto vestia a criança, um detalhe em seu diminuto corpinho chamou-me a atenção: uma fita de cetim vermelha amarrada com cuidado em um de seus punhos. Nos despedimos sorrindo, e alegrei-me, inexplicavelmente, contagiado por uma estranha certeza de que esse país ainda esteja grávido, de esperanças...
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