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O PRINCIPAL MEDO DOS MÉDICOS

Um dos fatores que mais nos prejudicam em tanto profissionais é uma falácia que nos inculcam desde os primórdios: "Médico não erra. Médico não pode - nunca - mostrar que não sabe".  É um daqueles ensinamentos que escutamos passiva e repetidamente durante a formação, que todos, no fundo, sabemos estar equivocado; mas ninguém tem a coragem de assumir. Medicina não é ciência exata. É arte de cuidar, prevenir, consolar e ajudar na cura e reabilitação de SERES HUMANOS, num dado contexto cultural, histórico, político, econômico, social.  Quer tarefa mais impossível do que essa? Essa falácia contribui em certa medida, a meu ver, para que alguns médicos terminem por adotar estratégias de proteção diante dessas variáveis que lhes provocam receio e insegurança: aumentam a distância física, afetiva e psicológica entre ele e o enfermo, não demonstram empatia, solicitam exames compulsivamente, maltratam, não tocam, se zangam com facilidade e tornam-se lacônicos.  “Quanto m...

CHIFRE-MIALGIA

“Como foi que a senhora começou a ficar desse jeito?” “Piorou muito depois que descobri que meu marido me traía com uma colega de trabalho. Não consigo perdoar, mas também não consigo largar ele, por medo de ficar só”. Depois que ela terminou a consulta e saiu, ele entrou em seguida: 65 anos, baixinho, cabelo grisalho, raquítico e surdo de um ouvido. “O senhor é marido da fulana, que saiu agora, né? Ela tá bem ansiosa, e piorando dos sintomas da fibromialgia... Tem ideia do que pode estar acontecendo?”. “Ah doutor. Muitos problemas em casa, né? Os filhos que não obedecem e têm dado alguns desgostos. Dificuldades financeiras... Ela se irrita com tudo, e é muito nervosa com as coisas”. “Aham... sei...”

ANSIEDADE

Ansiedade é igual vizinho chato: quanto mais a gente tenta evitar o encontro, mais ele aparece na nossa porta inventando uma desculpa para encher o saco.  (Ôh karma!!) Ansiedade é o tipo de transtorno que só melhora quando a gente esquece de pensar que ele existe. Ansiedade, quanto mais nos esforçamos em controlar mais ela assume o controle sobre nossas existências. Na próxima vez que ela vier, e aquela sensação de morte iminente te tocar a campainha, tente uma tática diferente: convide-a para entrar, sem oferecer resistência, sem medo de que veja a bagunça; deixe-a que explore sua casa, livremente. Depois, sentem-se no sofá, conversem amenidades; assistam um filme juntos. Tomem uma xícara de chá. Peçam pizza! Coloquem música, dancem coladinhos.

IGREJAS E MÉDICOS

51 anos, com a existência reduzida em dor de cabeça. Passou a vir à consulta com maior frequência nos últimos tempos, por subidas “inexplicáveis” da pressão arterial, além de tremores internos, insônia, dor nas costas e palpitações. No meio da anamnese, já com minha hipótese diagnostica quase consolidada, perguntei qual era seu principal medo. “Perder um filho assassinado”, respondeu, com uma rapidez que me impactou. Depois de examiná-la, perguntei o que a deixava tão ansiosa , e confesso que suas respostas causaram-me constrangimento. “Era minha sétima filha, doutor; uma surpresa: fiquei grávida com 44 anos. Tomei um susto, mas rapidamente comecei o pré-natal; fiz tudo bonitinho. “No final da gestação, tive um sangramento, e corri para o hospital. O médico que me atendeu disse que não era nada importante, e me mandou para casa com analgésicos. No outro dia pela manhã, o sangramento piorou e as dores passaram a incomodar. Voltei até o mesmo hospital, mas dessa vez me disseram q...

CERVICITE FELIZ

“É doutor... aturei muita coisa nesses anos, por conta dos meus filhos e da vida que eu levava. Não me sentia amada, nem desejada. Era tudo uma chatice. Meu marido só me tratava mal, e ainda me traía”.  “A gente fica aguentando um monte de coisas, mas, no final, não vale a pena”.  Ela tinha 40 e poucos, e acabava de sair de um casamento de 20 e tantos anos. Seu sorriso ia de canto a canto, sem embargo, e entre gargalhadas contava-me detalhes de seus últimos encontros e relaci onamentos. “Sinto uma dorzinha aqui no pé da barriga de vez em quando, doutor, e às vezes durante a relação sexual... Também já estou perto da menopausa, e me falaram que era bom começar a fazer um tratamento”. Examinei-a detalhadamente. Todos os sistemas, incluindo a parte ginecológica. Logo, opinei: “Apesar de ainda faltar algum tempo pra isso, penso que você deve encarar a menopausa, não como uma doença, mas como uma etapa diferente da sua vida. Faz parte do ciclo vital da mulher. Você esta...

ÓDIO ATACA O FÍGADO

Na medicina chinesa, o fígado é o órgão tributario da raiva, emoção que ontem voltou a entorpecer o país. Por isso, vai uma receitinha detox pro seu fígado que tá cheio de ódio, que recomendo seguir pelo menos até o carnaval: - Evite bebidas alcoólicas e remédios hepatotóxicos, tipo paracetamol. - Diminua a consumo de colesterol e gorduras saturadas. - Substitua o açúcar refinado e suspenda as bebidas doces industrializadas. - Contemple a beleza de uma flor, leia Pablo Neruda ou abrace uma criança, diariamente.

SÉCULO 21?

Duas adolescentes: uma com um filho no braço; a outra grávida. Negras. “Meu marido não deixa eu sair de casa pra fazer exercícios; morre de ciúmes”; “Eu não vou amamentar; acho feio, nojento”. Ambas não haviam terminado o ensino médio. “Nunca gostei da escola; nunca consegui me concentrar”. Tomei coragem e lancei, em tom jocoso: - Nossa. Decepcionado... Nem parece que estamos no século 21. Em época de internet, Facebook, zap zap... vocês parecem estar vivendo no século 19, ou no início do século 20! Trocaram olhares, encabuladas, hesitantes... “Mas, doutor... como é que o senhor sabe que estamos no século 21?”, disparou uma delas.