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TAPA NA CARA

Cada pessoa que dorme na rua e amanhece morta por causa do frio é um tapa na nossa cara: lisa, apática, patética, estudada, culta; é um tapa na cara da nossa indiferença cotidiana, da nossa pressa por consumir e produzir, e da nossa precária noção de civilidade. É tão grave quanto um suicídio na universidade. Talvez mais. É uma maldição. Porque jamais seremos complemente felizes se não formos por TODOS! É pra isso que chegamos até aqui? Pra descartar seres humanos nas sarjetas das grandes cidades? Tenho asco disso que vocês chamam de sociedade.

A QUEIXA PRINCIPAL QUASE SEMPRE É O MENOS IMPORTANTE

“Que que cê tá sentindo?” “Dor no pé. Às vezes incha”. Tinha 27 anos, pesava 100 kg e seu IMC registrava mais de 40 kg/m2. Examinei, toquei, palpei, mexi, explorei. E nada. Nem sinal que ajudasse. “Você acha que essa dor no pé pode ter alguma relação com seu excesso de peso?”. Foi ouvir essa última palavra - PESO - e desabar feito avalanche. Tampou os olhos e chorou, copiosamente. Maquiagem borrou, olho ficou vermelho; engasgou, soluçou, logo silenciou. “Por que você tá chorando?”, inquiri um pouco surpreso. Trás um longo suspiro nasal, respondeu, renitente, ainda com a cabeça baixa:  “É que ando muito ansiosa”. “Com o quê?”, insisti. “Meu filho tá com suspeita de autismo, perdi meu emprego recentemente e tô com muita saudade da minha mãe”. “Onde ela tá?”. “No Piauí”. “E seu pai?”. “Não conheci. Na verdade, nem conheci minha mãe. Essa que tá no Piauí é minha avó, que me criou. Aqui em Brasília, tô morando de favor na casa de uma tia, que, pra variar, tá ...

MEDICINA DE FAMÍLIA

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Tem muita gente que ainda fica confusa com esse negócio de medicina de família. “Você é clínico geral é?”; “Você é especialista em quê mesmo?” Então... Como te explico?  Nós somos especialistas nos problemas mais comuns do cotidiano, que afetam sua saúde, de sua família ou comunidade; nos agravos corriqueiros, no contexto da atenção primária. Nós somos a porta de entrada do sistema, e coordenamos  seu cuidado, tentando evitar excessos, perda de tempo e danos desnecessários.  A gente também gosta de fortalecer o vínculo, conhecer a pessoa, o que ela pensa, como sente, o ambiente e as circunstâncias onde ela se desenvolve: assim temos mais ferramentas para conseguir ajudar, com menos chances de erros. Atendemos indivíduos, sem distinção de sexo, gênero ou idade, em todas as fases da vida, e nos esforçamos para ser um dos membros de confiança da família. (Na foto, um sonho que se materializa, de uma equipe de saúde da família misturada com docência: a res...

BEBÊ SENTE CALOR

Pergunta de uma mãe durante o atendimento domiciliar: “Bebê sente calor?” (criança com body, casaco, manta grossa, touca, luvas, meias de lã, às 11 da manhã, em plena Samambaia tropical).

INVASÃO DE ESPAÇO

Não tem como se relacionar de verdade com ninguém sem invadir seu espaço, sem perturbar, incomodar, e até ser inconveniente. Essa noção urbana protocolar nos isola (problema grave em Brasília, cidade dos palácios e não-me-toques); essa noção bancária, empresarial, burocrática da existência nos desumaniza, e é caldo de cultivo para solidões e depressões. Vamos ser menos educados, protocolares, e ser mais carinhosos (daqueles chatos)? Vamos romper as barreiras de proteção, as linhas de defesa que o outro é levado a construir, e simplesmente pedir um abraço, e sorrir das angústias da vida em conjunto? Vamos gritar o nome da pessoa pela janela? Vamos aparecer de surpresa? Vamos abandonar o “Tá podendo falar?” e apenas ligar (vai que a pessoa, mesmo ocupada, só precise ouvir sua voz pra se animar?).

BANHO DE SOL

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Fosse em qualquer outro lugar do universo, seria um corredor. Mas, ali, na samambaia do avô roriz, era casa, e habitada por cinco almas; minúscula, imprensada, três cômodos, divididos por paredes branco-cal; sem portas. Num berço doado, uma bebê de dois meses, recém de alta do hospital: passara 30 dias internada por quadro de bronquiolite e pneumonia. Grave. No chão, colchão roído, colchas emaranh adas, pertences diversos, sem móveis. Da janela, vista do barraco ao lado, sem chance de circulação. À memoria veio-me, imediatamente, a imagem de uma paciente que atendi anos atrás no quarto do fundo: caquética, pálida, lúgubre, tripas de fora, vítima de avançado de câncer de intestino. Pedi licença para pegar a bebê no colo e leva-la até a calçada; sentia que precisava de ar. Dentro permaneceram a enfermeira e o agente de saúde orientando a mãe, sobre a necessidade de melhorar o ambiente para a criança. Mas, como? Fazia um vento frio, mas o sol brilhava imponente – à nossa esp...

ORÁCULO DE DELFOS

O melhor remédio, segundo o Oráculo de Delfos:  “conhece-te a ti mesmo”